quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Defeituosa




Defeituosa


Nada do que eu escreva hoje conseguirá expressar de forma devida tudo o que sinto. É então, como se o peito tivesse morrido, último suspiro, de tudo aquilo que ao passar dos anos jamais fora dito. Não se pára de sentir, assim, do nada. A fonte não secou ela apenas baixou o nível de suas águas. 

É que cá no meu peito, onde abrigo tudo que nele caiba, bate a contradição constante. A mão por sua vez, não cansou, ela anda dormente, luto para que a normalidade não me tome, nem me domine. Eu e o breu, querendo saber quem ocupa mais espaço e cada um faz exatamente o que consegue, permite e almeja.

Vou dançar descalça, e fazer músicas com rimas cheias de caretas. Andarei com um manto de retalhos coloridos puxando pelas mãos minha alma.

Porque sou tão pouco, talvez. O resto de alguma coisa que ainda nem sei.

Donzella do Gelo 

"Minha alma se cansou da minha vida" Fernando Pessoa

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Fragmentos do texto Disco Voador de Fausto Fawcet





"Eu estou sempre aqui, olhando pela janela. Não vejo arranhões no céu nem discos voadores. Os céus estão explorados mas vazios. Existe um biombo de ossos perto daqui. Eu acho que estou meio sangrando. Eu já sei, não precisa me dizer. Eu sou um fragmento gótico. Eu sou um castelo projetado. Eu sou um slide no meio do deserto. Eu sempre quis ser isso mesmo. Uma adolescente nua, que nunca viu discos voadores, e que acaba capturada por um trovador de fala cinematográfica. Eu sempre quis isso mesmo: armar hieróglifos com pedaços de tudo, restos de filmes, gestos de rua, gravações de rádio, fragmentos de tv. Mas eu sei que os meus lábios são transmutação de alguma coisa planetária. Quando eu beijo eu improviso mundos molhados. Aciono gametas guardados. Eu sou a transmutação de alguma coisa eletrônica. Uma notícia de saturno esquecida, uma pulseira de temperaturas, um manequim mutilado, uma odalisca androide que tinha uma grande dor, que improvisou com restos de cinema e com seu amor, um disco voador."


Fragmentos do texto Disco Voador de Fausto Fawcet

Postado por Donzella do Gelo


domingo, 23 de setembro de 2012

A Confissão








A Confissão

Escrevo no lusco-fusco do meu quarto, forrado de gravuras de Gustav Klimt e cartazes de Marlene Dietrich; ela me observa com seu olhar lânguido e altivo enquanto rabisco a folha branca em que se refletem os raios de sol, filtrados apenas pelas frestas das persianas. Lá fora um grilo grita a sua despreocupação e tudo é calmo, ameno dentro dessa casa. Parece que tudo está fechado e protegido por uma redoma de vidro finíssimo e o calor torna os movimentos ainda mais pesados; mas não há calma dentro de mim. É como se um rato estivesse roendo a minha alma, e de uma maneira tão imperceptível que até parece suave. 

Não estou mal e também não estou bem, a coisa preocupante é que "não estou". Mas sei me reencontrar: Basta levantar os olhos, e cruzá-los com o olhar refletido no espelho para que uma calma e uma felicidade tranquila tomem conta de mim. Diante do espelho, eu me admiro, extasiada com as formas que vão pouco a pouco se delineando, com os músculos que ganham um contorno modelado e inseguro, com os seios que começam a mudar de forma sob a camiseta e se movem suavemente a cada passo.

Não quero de jeito nenhum destruir esse mundo resguardado que construí para mim: é um mundo só meu, cujos únicos habitantes são o meu corpo e o espelho e aqueles que permito, os que desejo que aqui comigo estejam. A única coisa que realmente me faz ficar bem é aquela imagem que contemplo e amo: todo o resto é ficção. Mas minha alma não é falsa, nem nascida do acaso, tão pouco crescida na mediocridade, ela é intensa. Não foram falsos os beijos que timidamente dei em alguns meninos da minha escola.

Não é falsa essa casa, ela é parecida com o estado de espírito que tenho agora. Queria que de repente todos os quadros saltassem das paredes, que pelas janelas entrasse um ar acalorado, que miados de gatos tomassem o lugar dos cantos dos grilos. Lembro-me de um tempo o qual era tão fácil amar, mas como eu costumava ser, você nem lembra mais, e meu coração está preso em suas mãos, sem fingir.
Quero amor, diário. Quero sentir meu coração se derreter e quero ver as estalactites do meu gelo se quebrando e afundando no rio da paixão, da beleza.

Por Donzella do Gelo k.Fonte

A Lua

A lua nua, dança e flutua. Muda, e brilha sonhos. Chris Fonte - Donzela do Gelo