domingo, 2 de dezembro de 2012

Toda a Saudade do Mundo





Olhem que delícia de trecho de uma carta entre Jorge Amado e Zélia Gattai. 
Uma das várias correspondências contidas no livro Toda a Saudade do Mundo - A Correspondência de Jorge Amado e Zélia Gattai. Do Exílio Europeu à Construção da Casa 
do Rio Vermelho (Companhia das Letras)


(...)


Falas em tua carta eu “que me divirta”. Se a isso chamas divertir (e eu chamo), então tenho me divertido. Mas se empregas o termo em outro sentido (e assim me pareceu) então te enganas. Creio que se morresse hoje e minha vida (no particular) fosse julgada desde que te conheci, eu entraria no céu imediatamente e vestiria um véu de virgem. Fui a 3 cabarés, no domingo, na companhia pouco instrutiva, no particular, do Scliar. Os dois primeiros pareceram-se sem nenhum interesse. “Show” de mulheres nuas (regularmente velhas), num inteiramente, noutro como em qualquer teatro de revistas daí. O terceiro era um cabaré de frescos. Muito sórdido mas, pelo menos, diferente. Essa foi a minha vida “noturna” de Paris. Quanto a [pianista] Anna Stella,eu a vi duas vezes antes dela viajar (está na Inglaterra). Uma vez recebi, por intermédio do Consulado Brasileiro, um convite para assistir e participar de uma irradiação em televisão. Fui com Scliar. Lá encontrei, entre outros brasileiros, a Anna Stella (gorda e feia) que tocou. Eu a vi outra vez, também com vários outros brasileiros, num ato onde fui com Aragon. E só. E sobre o assunto basta também pois bem sabes que a senhora esta não me interessa em absoluto. Nem outra senhora qualquer. Interessa-me tu, meu bicharoco lindo e louco”.



quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Defeituosa




Defeituosa


Nada do que eu escreva hoje conseguirá expressar de forma devida tudo o que sinto. É então, como se o peito tivesse morrido, último suspiro, de tudo aquilo que ao passar dos anos jamais fora dito. Não se pára de sentir, assim, do nada. A fonte não secou ela apenas baixou o nível de suas águas. 

É que cá no meu peito, onde abrigo tudo que nele caiba, bate a contradição constante. A mão por sua vez, não cansou, ela anda dormente, luto para que a normalidade não me tome, nem me domine. Eu e o breu, querendo saber quem ocupa mais espaço e cada um faz exatamente o que consegue, permite e almeja.

Vou dançar descalça, e fazer músicas com rimas cheias de caretas. Andarei com um manto de retalhos coloridos puxando pelas mãos minha alma.

Porque sou tão pouco, talvez. O resto de alguma coisa que ainda nem sei.

Donzella do Gelo 

"Minha alma se cansou da minha vida" Fernando Pessoa

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Fragmentos do texto Disco Voador de Fausto Fawcet





"Eu estou sempre aqui, olhando pela janela. Não vejo arranhões no céu nem discos voadores. Os céus estão explorados mas vazios. Existe um biombo de ossos perto daqui. Eu acho que estou meio sangrando. Eu já sei, não precisa me dizer. Eu sou um fragmento gótico. Eu sou um castelo projetado. Eu sou um slide no meio do deserto. Eu sempre quis ser isso mesmo. Uma adolescente nua, que nunca viu discos voadores, e que acaba capturada por um trovador de fala cinematográfica. Eu sempre quis isso mesmo: armar hieróglifos com pedaços de tudo, restos de filmes, gestos de rua, gravações de rádio, fragmentos de tv. Mas eu sei que os meus lábios são transmutação de alguma coisa planetária. Quando eu beijo eu improviso mundos molhados. Aciono gametas guardados. Eu sou a transmutação de alguma coisa eletrônica. Uma notícia de saturno esquecida, uma pulseira de temperaturas, um manequim mutilado, uma odalisca androide que tinha uma grande dor, que improvisou com restos de cinema e com seu amor, um disco voador."


Fragmentos do texto Disco Voador de Fausto Fawcet

Postado por Donzella do Gelo


domingo, 23 de setembro de 2012

A Confissão








A Confissão

Escrevo no lusco-fusco do meu quarto, forrado de gravuras de Gustav Klimt e cartazes de Marlene Dietrich; ela me observa com seu olhar lânguido e altivo enquanto rabisco a folha branca em que se refletem os raios de sol, filtrados apenas pelas frestas das persianas. Lá fora um grilo grita a sua despreocupação e tudo é calmo, ameno dentro dessa casa. Parece que tudo está fechado e protegido por uma redoma de vidro finíssimo e o calor torna os movimentos ainda mais pesados; mas não há calma dentro de mim. É como se um rato estivesse roendo a minha alma, e de uma maneira tão imperceptível que até parece suave. 

Não estou mal e também não estou bem, a coisa preocupante é que "não estou". Mas sei me reencontrar: Basta levantar os olhos, e cruzá-los com o olhar refletido no espelho para que uma calma e uma felicidade tranquila tomem conta de mim. Diante do espelho, eu me admiro, extasiada com as formas que vão pouco a pouco se delineando, com os músculos que ganham um contorno modelado e inseguro, com os seios que começam a mudar de forma sob a camiseta e se movem suavemente a cada passo.

Não quero de jeito nenhum destruir esse mundo resguardado que construí para mim: é um mundo só meu, cujos únicos habitantes são o meu corpo e o espelho e aqueles que permito, os que desejo que aqui comigo estejam. A única coisa que realmente me faz ficar bem é aquela imagem que contemplo e amo: todo o resto é ficção. Mas minha alma não é falsa, nem nascida do acaso, tão pouco crescida na mediocridade, ela é intensa. Não foram falsos os beijos que timidamente dei em alguns meninos da minha escola.

Não é falsa essa casa, ela é parecida com o estado de espírito que tenho agora. Queria que de repente todos os quadros saltassem das paredes, que pelas janelas entrasse um ar acalorado, que miados de gatos tomassem o lugar dos cantos dos grilos. Lembro-me de um tempo o qual era tão fácil amar, mas como eu costumava ser, você nem lembra mais, e meu coração está preso em suas mãos, sem fingir.
Quero amor, diário. Quero sentir meu coração se derreter e quero ver as estalactites do meu gelo se quebrando e afundando no rio da paixão, da beleza.

Por Donzella do Gelo k.Fonte

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Anjo





"Goza a euforia do voo do anjo perdido em ti.
Não indagues se nossas estradas, tempo e vento, desabam no abismo.
Que sabes tu do fim?
Se temes que o teu mistério seja uma noite, enche-a de estrelas.
Conserva a ilusão de que teu voo te leva sempre para o mais alto.
No deslumbramento da ascensão, se pressentires que amanhã estarás mudo,
esgota como um pássaro, as canções que tens na garganta.
Canta! Canta para conservar uma ilusão de festa e vitória.
Talvez as canções adormeçam as feras que esperam devorar o pássaro.
Desde que nasceste não és mais que um voo no tempo.
Rumo ao céu?
Que importa a rota!
Voa e canta, enquanto resistirem as asas."

(Menoquia del Pichia)


"Não quero perder as minhas asas,
por isso não vou crescer - apenas me desenrolar."
[Lya Luft]




sábado, 18 de agosto de 2012

A Borboletinha





A Borboletinha

I
Em suas asas coloridas
Nas revoadas de cetim
Brinca, brinca a borboleta
Voando em meu jardim

II
Passa o tempo, formosa vida
Nas estradinhas de capim
Brinca, brinca a borboleta
Sorridente em meu jardim

III
Sua beleza pousa afoita
Nos meus lábios de carmim
Brinca, brinca a borboleta
Na minha pele de marfim

“E Leve voa a borboleta na estradinha de capim...”

Por Donzella do Gelo



A Letargia




Abre a boca e engole
as verdades que tenho a
lhe dizer

Vira e revira esse corpo
que eu mesmo marquei
por te querer

Olha o meu rosto
e entenda as marcas que
deixou

Escuta e não provoca
esse golpe que te preparei
por toda noite

Entorpecente relação
fusão maligna
de desejo e possessão

Coisa doentia

Que me prende entre
teus quadris
na tua boca vermelha

Nas tuas mentiras
onde tudo é tão breve
nesse calor que no cega

Onde a neblina cobre meus olhos
nas calúnias que levantas
enquanto meu corpo absorto

dorme.


Por Donzella do Gelo


.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O Sonho





Não haviam ainda me falado que seria assim, as dores, os problemas e as tentações. Era um mundo mágico que de fato vislumbrava. Não havia ainda espaço para um entendimento, para saber quando tudo teria seu início. Era como entrar numa dança, e mesmo que desengonçada, ser perfeita. Uma perfeição ilusória, mágica de curto alcance e discursos de um mundo, onde os problemas eram todos solucionados. Um mundo de maravilhas. Bobagem.

Toda a questão é que ainda sou a mesma garota, apenas uma garota, que tinha expectativas com o mundo e com as pessoas. Mas isso, voou para muito além do meu alcance. Então na verdade refugiei-me em meus sonhos, no meu sono diário. E toda vez que fecho meus olhos, desvio-me da vida tão pesada. Voar para longe a cada lágrima, a cada noite, da tempestade, para um repleto dia de sol.

Mas os problemas, as faltas, os riscos, estão logo ali adiante. Contudo, não se pode ver a floresta pelas árvores. Então é preciso seguir adiante, ser firme e resgatar-se a cada dia. Não perderei os sonhos, nem o sono. A vida é mistura, e agora sei que tudo coopera para que a cada manhã, a gente se desperte e repense em cada erro, e em cada acerto. Sonhar é preciso. Tocar as alturas e sorrir pra vida é necessário.

Doces sonhos são forjados disso, de viagens pelo mundo, mesmo que os nossos pés estejam fincados ao chão. Pois todos estão a procura de algo. A roda da vida não pára, nunca retrocede ao contrário adianta-se a cada dia, a cada movimento, seu, meu, nosso.  

Donzella do Gelo

Poesia


Poesia


Poesia,

Porque arde,
me incendeia, queima e então renasce,

tudo em mim,

tudo por fim, recomeça a nova arte.

Donzella do Gelo

terça-feira, 7 de agosto de 2012

O Outono




O Outono

Aquele gemido era quase inaudível. Sentimentos apurados que se dividem entre o osso e a medula. Uma face, faceta inalterada, escondida numa tatuagem feita a golpes de faca.

Cada fio de pensamento não era o alento esperado, o cintilar dos olhos estavam agora foscos e perdidos, receosos de toda dor prevista, revista e esperada. A frente de seus olhos àquelas horas eram forjadas, mal traçadas. Linhas tênues que dividem seu mundo. Um corte profundo lançado ao vento, um pensamento impuro de desejo em desespero no rio dos sentidos.

Fios soltos de um conto sem fim. Um mundo difuso, porém inalterado. Ritos e invenções feitos de tapas e raios luminosamente belos e coloridos nas entrelinhas dessa história. Algo como fisgos, cortes e lanças. 
Uma busca constante, uma fuga de si para si mesma.


Por Donzella do Gelo - KFonte

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A Lua




Quando a lua teima
ficar
acordada
de pé se coloca
entre galhos e gravetos
e
de luz posta
é hora
... de esperar á porta
a suave entrada
dos ventos amantes

Por Donzella do Gelo - KFonte

sábado, 4 de agosto de 2012

A Saudade



E o médico perguntou:

- O que sentes?
- Sinto lonjuras, doutor.
Sofro de distâncias.

[...]

bonsais atômicos, Denison Mendes

O Retrato


O Retrato

Nas bordas envelhecidas está o retrato. Eu poderia dizer que soa decadente. Mas os restos que ficaram não estão nas bordas, ou na imagem. Estão nas cartas escritas, restos de longas poesias. Feitas em nossas trocas. 

Você não tem talento para criar frases poéticas, eu sim. Mas por muitas vezes para que você me entendesse, eu suspirava pelas paredes envelhecidas do nosso quarto. E com meu suor, escorregava no chão, marcando sinuosamente meu desejo. 

Esta é minha escrita para você. Minha letra cursiva, morde suas costas e ombros, é meu modo de lhe dizer, que ainda estou aqui. E que te amo.


Por Donzella do Gelo - K Fonte

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O Abandono



O Abandono - Por Donzella do Gelo - K Fonte

A questão do bandono, não é ser abandonada. É abandonar-se. É parar de se reconhecer como ser e ir minguando. Minguando nas atitudes, se tornando refém de algo invisível. É desaprender-se a olhar-se de dentro para fora. É ofegar, nao lutar com a maré e deixar-se ir além do que não se quer, mas que está tão entranhado que fica quase impossível viver sem. Dor.

É uma prisão dos sentidos, das vontades, são as cordas que fazem as amarras. É a água saloba que escorre pela garganta e afoga os pulmões evitando o grito. E sem gritos, não há pedidos de socorro, pois dependendo de onde você está nesse processo de quem te ouvirá?

O Abandonar-se é maltrato dedicado, é olhar-se no espelho e cultivar marcas de rancor de si mesmo. Se maltratar dia a dia e pensar que isso pode algum dia produzir algum tipo de beneficio. Ao redor o mundo estagna, a roda gigante pára e o parque perde uma das suas mais belas atrações. A roda que deixa você ver quase metade do mundo todo!

Esse todo nos é afastado, engolido pelas pupilas falhas, olhos frustratos por todas as tentativas que deram erradas, por todos os sonhos que não foram, apenas. Abandonar-se é dizer a si mesmo não me amo mais, não me vejo mais, e com isso se tornar menos um, menos um a vida que não pára seu curso. Não se iluda, a vida não vai parar. Nunca. Esteja você feliz, infeliz.

O Auto abandono desorienta, não há bússula, para retorno. O que há e o reconhecimento de que você não está bem. É olhar-se querer-se novamente para si. Para que tudo volte, ou para que se recomece, é preciso amar-se, só a redenção no amor.

E nisto, neste resgaste de si para si mesma(o) o percurso é só.
Ninguém além de ti mesmo vai fará o percurso. O Amar- se vem de dentro, vem do seu próprio resgate. Do amor restaurado, a passos pequenos, mas confiantes de que no fim você estará, amando-se, doando-se a si mesmo. E o mais importante estará de pé.

Por Donzella do Gelo

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Alguém como Eu - Vídeo

Alguém como Eu




Alguém como Eu
Stênio Március

Entra Mestre,descansa um pouco
Estás cansado,estás sedento e rouco
Dorme Mestre, a casa é Tua
Já fechei porta e janela pra rua

Deixou me falando só
Dormiu tão pesado fazia dó
Como será Mestre este sonho Teu?
Sonhas como homem? sonhas como Deus?
Sonhas com a glória que tinhas com o Pai, na luz?
Ou sonhas com a cruz?

Perdoa Mestre, mas já é hora
Uma multidão te espera lá fora
Estás decidido, não te detenho
Vais curando até chegar ao lenho

Partiu,fica a paz em mim,
Fica sala com cheiro de jasmim
Vai verter a vida do corpo Seu,
Pra levar a culpa de alguém como eu,
Pra lavar o sujo do meu próprio eu,
Levar-me puro a Deus

Por Donzella do Gelo

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Morte e Solidão





Morte e Solidão
Por Kika Fonte


A ocasião era o funeral de um homem Palestino, e os protestos corriam no coração da cidade de forma absolutamente violenta.

Tav fora morto e torturado de uma forma nunca vista pelas autoridades Palestinas. Pequenas perfurações em torno do pescoço, pulsos e virilha, na calçada não havia qualquer mancha de sangue, o que sugeria que ele havia sido vítima de um carrasco terrível.
Seu órgão genital encontrava-se completamente dilacerado, abdômen e tórax estavam rasgados e os conteúdos completamente secos. Em seu corpo por mais que se procurasse nem uma gota de sangue havia. Tav fora sugado até a morte.
Nenhuma imagem do corpo fora exibida, seria mesmo terrível mostrar fotografias de uma atrocidade como aquela. A única coisa que se sabe é que a investida que antes tivera sido atribuída aos Israelenses caíra por terra quando junto ao corpo fora encontrada uma inscrição Árabe onde dizia: "Sou Senhor absoluto da noite".

Vou tentar contar a história...

Sobre a inscrição, quero dizer que fui eu mesmo quem deixou lá, porque me bastou chegar a Israel em meio a Intifada, morto de fome, e presenciar meus companheiros famintos se provendo daqueles pobres que se esquivavam pelos becos, eles os sugavam como que, fazendo um ato de misericórdia, afinal já estavam mesmo as beiras da morte. Degradante.
Desculpem-me se no momento mostro uma teoria clássica e prática, mas me compele ser moderno, afinal estou eternizado e lhes digo que atravessar os séculos vendo a evolução do mundo me deixa um pouco nostálgico. E o que presenciara naquele momento era algo tão rude que confesso, me assustei. Prefiro continuar em minha solidão a me unir a criaturas tão desprezíveis.
Resolvi então que precisava de algo novo, não, não era o sangue de um jovem bonito, tão pouco de um belo rapaz na tenra idade. Eu queria me alimentar de algo ¿diferente¿.
Talvez ideais unidos ao vigor do sangue. Não pensem que sou promíscuo, eu queria algo que seria minha redenção. Lembrei-me de Tav o proeminente jornalista, um homem conhecido e mais, um homem respeitado apesar de seus 28 anos de idade.
Ele morava em Ramallah, era um jornalista ousado e nada escapava aos seus olhos, por isso era sempre designado para fazer as reportagens sobre o grande impasse que era a briga entre nós Palestinos e eles...Os Israelitas.
Sua imparcialidade era espantosa, por isso causava a cada coluna um alvoroço por toda a cidade. Era como se todos esperassem por sua opinião. Honestamente eu admirava aquele rapaz e mais, o desejava, seu sangue, seus ideais e por fim sua companhia. Então decidi que naquela noite eu iria procurá-lo. E fui.
Cheguei no café Issam, (era o café mais procurado pelos jornalistas e estudantes), lá se reunia toda a sorte de pessoas. Se você quisesse saber de algo ou encontrar alguém, com certeza ali era o lugar certo. Lá estava Tav dinâmico, falando e gesticulando para quem o quisesse ouvir.

Ele dizia:

- Viram?! A Marcha de protesto no coração da cidade em nada adiantou! Como Você mesmo pode ver meu caro Hamad, todos os seus esforços foram inúteis contra o que você chama de "vítimas de uma grande farsa"
Ao ponto que Hamad o respondeu ironicamente:
- Claro meu jovem idealista! Homem que domina as palavras como uma faca afiada pronta a cortar seu oponente. Você não deu ênfase a Marcha em sua coluna no jornal. Quase me ridicularizou, fiquei numa situação constrangedora, creio que me culpa de fazer apologia. Em sua visão torpe no que tange a liberdade, você anda dizendo que eu sou um mero aprendiz!

- Não é bem assim meu caro, você chega a ser amoral!
Antes que Hamad de certa forma reagisse às investidas de Tav, foi detido por um amigo.
- Não se inflame meu caríssimo! Venha comigo vamos tomar mais vinho, apesar de tudo hoje é um dia de grande reflexão. Tav é um sonhador não se detenha em seus desvarios.

Todos riram, e foi neste momento, que eu me pronunciei.
- Meus caros amigos! Tudo isso por causa de aliviar a culpa e a responsabilidade do real culpado. Boa noite. Sou Ariel. Acalmem-se não sou o Sharon. Ali ganhei uma certa liberdade e alguns sorrisos.

Quando percebi que Tav me olhava, meus caninos de súbito surgiram me contive bebendo um pouco de vinho, meio desconcertado, olhei para o lado e me acalmei. Foi então que:
- Ora vejam só! Disse Tav. Enfim um homem sem papas na língua seja bem vindo Ariel beba conosco. Acenava gentilmente com o braço.
Ele pediu licença aos demais, e me convidou para conversar em uma mesa mais isolada.
- Cheguei mais perto, puxei uma cadeira e me acomodei. E foi ali que em meio a toda aquela confusão de cigarros, bebidas e algumas brigas, que tracei com minha presa a mais fiel conversa política que tive nos meus últimos anos...Anos?

- Você tem que admitir, o Estado de Israel dominou a Mídia.
- Vamos lá Ariel todos sabem que nós os palestinos encolhemos Israel com gritos de justiça e liberdade.
- Eu ri. Tav conte-me qual é teu maior sonho? Fale-me de seus ideais.
- A liberdade, meu caro já seria um bom começo. O entendimento entre os povos, mas isso me parece um tanto distante.
- Anda cansado não é mesmo?
- De tudo, ando cansado de calúnias que se seguem através da história.

Acho que para quebrar o gelo ele disse, com um breve sorriso:

- Eu queria praticar o ¿breve suicídio¿. Estou farto de ser o homem que revela o lado terrorista e ditatorial de uma briga que vem desde nunca! Eu acredito em tantas coisas, que ando me perdendo em minhas matérias. Mas só eu noto isso.
- Entendo você, é como acreditar em lendas. Como os Vampiros, não é mesmo?
- Seres surpreendentes, conheço algumas lendas sobre tais criaturas. Pura literatura, porém se realmente existem, devem estar no poder, não queria ser mordido por um, meu amigo. Aqueles caninos não me parecem muito amigáveis. Foi então que percebi que o vinho já o havia levado para muito longe daqui. Eu lhe disse que estaria cansado e que precisava dormir, mas como tinha chegado na cidade naquele dia não havia mais hospedagem.

Então...

- Ora deixe disso, você vem comigo esta noite, dorme em minha casa e pela manhã você busca um lugar para ficar. E assim foi.

Quando entramos num dos becos que davam acesso a casa de Tav, a besta incontida que havia em mim veio à tona. E minha fome não era só pelo sangue, mas fome por seus ideais. Naquele momento me tornei o mais temido algoz que eu poderia ser. Enquanto ele ainda falava de seus trabalhos no jornal, avancei para pegar minha presa num movimento rápido e calculado. Tav não teve chances. Encostei-o brutalmente na parede, e pude sentir todo seu corpo, em seus olhos um certo pavor.

- O que acontece com você Ariel!?
- As lendas meu caro, algumas delas são reais.

Foi quando o lancei ao chão. Detido por minha fúria e minha fome eu o imobilizei. Atordoado com o impacto começou a balbuciar palavras de liberdade em pura rendição. Naquele momento lhe mostrei meus caninos. Apertei seu corpo e o coloquei de uma forma em que só olhasse para mim. Neste sentido último ou não, Eu seria seu foco.

- Ariel, um vampiro. Realmente a humilhação é uma estratégia premiada.
- Para os de sua espécie.

Foi quando não pude mais me conter, cravei meus caninos no seu pescoço, bebi daquele sangue que para mim era uma oblação. Tombei minha cabeça para trás extasiado, envolvido num prazer mórbido, me sentia esplêndido. Que sabor maravilhoso tinha aquele sangue, era um misto de vida, ideal de pura entrega. Ele apertou meus braços e continuou.

- Você pode matar um homem, mas nunca seus ideais, mas hoje certamente me fará desejar a morte não é mesmo?
- Não Caríssimo, vou te dar uma escolha. Pode viver comigo, numa vida paralela, onde para nós a morte é vida, e a vida sustento. Ou eu posso lhe dar a morte total e absoluta.
- Vejo que você ataca pessoas por muito tempo Ariel. Um dia alguém poderá se voltar contra você. Se quiser me matar me mate! Mas não quero ser algo monstruoso como você se tornou! Repudio você!
- Tav, meu bom amigo. Você fez a sua escolha! Não declinarei seu pedido de liberdade, ou quem sabe de fuga?

Quis feri-lo com palavras, achando que com isso ele me deixaria imortaliza-lo. Mas não foi assim.

- Vamos lá Ariel, cumpra-se em mim teu destino. Livre-me de tua face!
- Vou te livrar deste monstro.

Foi então que por conta de sua negação em ser meu companheiro o mordia mais e mais, onde houvesse a direção do seu sangue ainda correndo, ali o mordia! Tav estava quase vencido, sem emitir um só murmúrio ficou ali em minhas mãos, e suguei até suas entranhas! E meu ódio por aquela criatura se tornou tamanho, que o dilacerara em suas partes mais íntimas, como se quisesse não só ultrajar seu corpo como também seu espírito. Enfim só havia seu corpo, minhas marcas e minha solidão. Escrevi com seu próprio sangue o meu recado, um aviso para todos!
Como queria aquele ser! O desejei como meu companheiro, como meu interlocutor para várias conversas, queria trazê-lo para minha "Esquadra de Morte e Solidão", que naquele momento, continuaria tendo a mim seu maior colaborador, solitário entre vários mundos.
Foi assim que sai dali, manchado do sangue da minha própria admiração. Culpando a vítima, foi um recurso do culpado repudiando o horror do seu próprio crime.

Por Donzella do Gelo

Teu tesouro, onde Está?



" Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração"

Mateus 6:21
Por Donzella do Gelo

sábado, 14 de julho de 2012

Põe Tudo em Cristo




É ótimo saber que existe Alguém que é sempre o mesmo e está sempre conosco. É bom que exista uma Rocha firme no meio dos vagalhões do oceano da vida. Oh minha alma, não ponhas as tuas afeições em tesouros perecíveis, que enferrujam e a traça corrói. Põe o teu coração nAquele que permanece fiel para sempre.

Não edifiques a tua casa nas areias movediças de um mundo enganoso, mas fundamenta as tuas esperanças naquela Rocha que, em meio à chuva e à enchente estrondosa, permanece inabalavelmente segura. Alma minha, eu te ordeno: armazena teu tesouro no único lugar seguro; acumula tuas jóias onde nunca pode perdê-las. Põe tudo em Cristo.

Por Donzella do Gelo

O Tempo




O Tempo


Há algo de belo no tempo, o mínimo espaço entre o que queremos e o que temos.  Esse tempo que ás vezes nos escapa pelo canto dos olhos, que se esvai na retina, por vezes escapa pelas mãos.
Mas é no tempo que Deus, atemporal trabalha, nos forja para todas as lutas, todas as batalhas. Quem, se não este Deus, seria capaz de deixar fluir água em meio ao deserto? E nos fazer chegar, ajoelhar e bebê-la até nos fartar? Quem além deste Deus de amor diz: “Espera tudo passa, creia tão somente em mim”.

É no tempo que nos sentimos frágeis, preocupados com os silêncios de Deus, e achamos que Ele nos deixou além.  Ora este Deus de amor jamais nos abandona, pois Ele é também o tempo, defragado para nos ensinar que em tudo Ele É. Pois só Ele pode nos defender daquilo que não vemos. É no tempo, mesmo que por vezes sofrido, que brota o sorriso que rega toda dor, e este sorriso vem direto do coração de Deus, e de seu Espírito Consolador. E é em Cristo, nosso intercessor que recebemos vigor pois ele roga por nós.

É no tempo que nos amedronta, que vemos que Deus não nos abandona e sim nos toma em seus braços e nos leva, nos conduzindo no cansaço. Este Deus nunca dormita, nunca deixa um servo seu. No mais, Ele pede, creia somente sou eu Te Deus.

Por Donzella do Gelo


sexta-feira, 13 de julho de 2012

Abrigo



Abrigo

Entorpecida entre laços e apertos, seu canto calado se afoga no beijo. Corpo pálido, visão difusa que tudo mistura deleite de quem tem fome e se doa, comove e se move com lentidão. Corpo informe, fome que devora a solidão.

Então nesta noite sem estrelas onde o frio é cortante, me aconchego no teu corpo, abrigo dos sentidos, onde meus olhos se fecham e minha boca…
Bebe na tua.

Por Donzella do Gelo

Reminiscências




A minha história é por essência uma história de horror. Uma união de sensações suprimidas, guardadas. O nome real de minha família prefiro guardar em segredo. Não há em todo país um castelo mais agraciado de glórias do que o velho e melancólico solar de meus avós. 

Deste tempo imemorial, minha família era chamada de visionária. De fato em muitos pormenores notáveis, no tipo de nossa mansão familiar, nas pinturas do salão, nas tapeçarias dos aposentos, nas cinzeladuras das colunas da sala de armas; porém, e especialmente na galeria dos quadros antigos, na fisionomia da biblioteca e, enfim, na natureza muito particular do conteúdo dessa biblioteca, há de sobejo com o que justificar esta denominação. 

Todas as minhas recordações estão ligadas intimamente àquela sala, aqueles intermináveis volumes dos quais gostaria de poupar minhas lembranças. Mas elas fazem parte de mim e do que represento hoje. Minha mãe morrera ali, foi ali que eu nasci entre as paredes, entre aquele mosaico radioso de livros e ensinamentos ocultos. Será que vivi antes? Se é que a alma não tem uma existência anterior. Não procuro convencer ninguém. 

Na minha memória há uma reminiscência de formas aéreas, de olhos intelectuais e expressivos, de vozes harmônicas e melancólicas; uma reminiscência que não quer me deixar; uma espécie de lembrança semelhante a uma sombra vaga, variável, indefinida, vacilante. Sombra essencial eu admito! Da qual não poderei separar-me jamais e enquanto meu cérebro fulgir da razão. 

E foi ali mesmo que eu nasci. Emergi das trevas, que pareciam ser, mas que não eram, o nada, para cair subitamente num país maravilhoso, num palácio fantástico, nos estranhos domínios dos pensamentos e da erudição, da magia, do ocultismo. Não é de se admirar meu olhar ardente e os tantos outros olhos que em torno de mim habitam. 

Minha infância fora debruçada em livros, me impregnando de música, e de todo conhecimento que eu pudesse reter em mim, minha juventude fora banhada pelos meus devaneios; mas o que é singular, mesmo os anos, tendo caminhado, e o vigor da vida tendo-me encontrado ainda no solar de meus antepassados, o que é estranho, é a inércia que paralisou as coisas mais vitais em minha vida: fazendo brotar em mim a mudança de caráter dos meus pensamentos mais ordinários. 

Sou a filha única, desta família de ocultistas. Tudo que aprendi fora com meus pais e meus avós. Há muito tempo atrás, tinha a fronte erguida e muito rosada. Os cabelos negros como o ébano, que sobre caem em minha fonte encovada em anéis de um negro que oscila, mas ardente, cujo caráter fantástico discorda cruelmente da tristeza do mirante de minha fisionomia. Hoje meus olhos não têm vida, nem brilho, parece não ter pupilas. Tenho os lábios afilados e contraídos, tenho uma fixidez quase vítrea. E quando estes lábios professam qualquer tipo palavras entreabre-se um sorriso mordaz e os dentes alvos, revelam-se lentamente. 

A desgraça deste mundo é variada; multiforme é a miséria. Dominando o vasto horizonte o arco-íris finge sua beleza, e como ele as suas cores são diversas, distintas e, todavia, fundidas. Como eu pude de um exemplo de beleza tirar algum tipo de fealdade? De um emblema de aliança e paz tirar uma semelhança de dor. Ah! O Mal advém do bem. Na realidade é da alegria que vem o desgosto e com ele a dor. 

A lembrança da felicidade passada produz a amargura de agora, que a amargura que existe tire da sua origem o prazer do que poderia ter existido. E agora eu lhe afirmo com toda certeza pois com o passar dos séculos, a realidade do mundo não me impressiona, mas suas visões sim. Minhas idéias loucas de um mundo dos sonhos são; não a preocupação da minha existência, mas sim o que darei a este mesmo mundo quando chegar a hora.


Por Donzella do Gelo

terça-feira, 10 de julho de 2012

A vida é feita de pequenas Epifanias.





A vida é feita de pequenas Epifanias.
Olhares, sorrisos, entrega.
Em qualquer idade isso é possível.

Só depende do amor.

Seja mais criança. Brinde a vida a cada momento dando valor as coisas simples.
Nisto está a troca, o envolvimento, a coragem de envelhecer por fora, mas carregar 
dentro de si, todas as crianças do mundo!

Alegre-se com a vida. Alegre-se com Deus! Afinal Ele tem nos conduzido até aqui!

Bom dia

Por Donzella do Gelo

terça-feira, 26 de junho de 2012

A Morte é Vermelha





A Morte é Vermelha

"Aos Grandes" Por Kika Fonte 

Sabemos que existem, vários instrumentos de análise literária para se julgar os textos, porém aqui julgaremos os texto não pela sua mensagem, mas pela sua capacidade de persuasão. Minha base é esta: Aristóteles comenta que a obra de arte deve ter o poder de seduzir quase que imediatamente seu público. Eu não vejo esta linha de Aristóteles quando comentam autores como Anne Rice ou Joyce. Portanto quero lembrar que tal linha se traçou na Idade Média e hoje é pouco usada, o Perelman que introduz esta linha é ótimo com o pensamento de Aristóteles, portanto é o que levaremos em conta por aqui! Grande beijo e vamos nos divertir! 


A Morte é Vermelha por Kika Fonte 

Como águas de chuvas que transbordam o poço, Anicia conheceu algo novo . Algo que fincou em seu olhos, o desejo. Ela conheceu um lobo que se dizia, "o tolo". E ele trazia a Morte nos olhos. Mas Anicia que sina, via tudo preto e branco, mas o lobo...Este via tudo colorido. Anicia então se encantou pelo lobo, que lhe contava sobre as cores do mundo. (Este lobo porém não era tolo.) E os dois formaram um par! Ela era Preto e Branco, e ele era todo colorido. E viviam alegres, sendo tudo que um, poderia ser para o outro. Mas um dia ( sempre há outro dia ). Parou de chover...e o lobo...se "desfez" de tolo. 


E Chamando Anicia para subir uma colina; Ele dizia:

- Vou te mostrar no alto da colina que você também pode ver o mundo colorido. 
- Anicia estremeceu. Exclamou! 
- Eu?? Verei colorido como o lobo vê! Vamos lá, quero crer! 

Tudo que Anicia mais queria, era mesmo ver as cores. 
E o lobo, gostou, Anicia estava no papo, no ponto, na medida, de sabida? Nada tinha... 
Numa rápida magia subiram então a colina. 

No topo Anicia grita!
- Eu vejo o Olho do mundo! 

O lobo sem demora, logo deu sua primeira investida..
- Vês o que Anicia? O olho do mundo? 

Anicia toda Preto e Branco dizia ...
- Sim eu vejo! 

E ele sem demora...
- Eu o Vejo colorido!! 

Então, Anicia cobiça o Mundo colorido que o lobo vê, e o lobo percebe... 

- Que desejas ver ? 

E ela tadinha, que gostava do vermelho, porque todos diziam que era a cor da vida disse: 
- Quero ver o Vermelho!! O vermelho! 

E nesta hora ventava, e o lobo sangrou de alegria, lambeu as patas e partiu para Anicia. Ele chegou bem perto, e deu-lhe uma lambida. Anicia se viu tonta, atordoada mesmo , e seu desejo cresceu..Mas...Ao abrir os olhos, viu os olhos do lobo, que não é mais tolo, e de lobo não tinha mais nada... 


E Anicia diz! 


-Vejo o Vermelho! Mas ele não me conduz a vida! _ E quem é você? ! ? Perguntou Amedrontada 

O lobo, que não era mais lobo responde: 

- Meu Nome é Hades e lhe trago a cor dos teus sonhos! 

E neste momento, uma melodia tocava e dançavam em pleno ar ! E Hades segurando Anicia, transfigurou-se mais ainda, seus olhos ficaram vermelhos, suas presas cresceram e seu corpo eram duas vezes maior que antes. Anicia se viu presa, e mesmo assim se alegrou, pois diante dos seus olhos, lá estava o vermelho. Até que sentiu seu coração rasgar, as mãos de Hades estavam sobre ele. E Anicia, se vê banhada de um vermelho oscilante. Sentia as brasas do inferno, naquele momento delirante! 

E ainda assim durante a dor de sua perdição, numa oração Dizia: 

- Muitos rezam para você por medo do fogo _ E muitos te pedem um Jardim _ Mas eu não rezo para você desta forma, porque não tenho medo do fogo! Nem te pedi um jardim! _ Mas tudo que te pedi, era a essência do teu amor, e queria tornar-me tua face, para ver as cores. 

E naquele momento mágico e apavorante, Hades a abraça e lhe diz: 

- Criança eu lhe trouxe a cor vermelha, brinque e aproveite, pois é a única cor que hoje verás! 

E Anicia brincava, nas mãos de Hades toda inocente. E nos olhos do lobo, que agora era homem, Anicia desfalecendo reconhece a Morte.

Hoje no vilarejo perto da colina, sem saber se Anicia "morreu" mesmo, contam lenda assim: 

- Uma menina, cujo nome era Anicia, por ver tudo em preto e branco, cobiçava as cores do mundo. Um dia, encantou Hades o deus dos Infernos e da Luxúria. Ela por querer ver as cores e Ele por achá-la especial, saíram para ver o Mundo. E lá no topo da colina, dançaram juntos. E ele enganando-a, lhe deu uma única cor, a vermelha. Dizem, que ela foi feliz, pois viu o vermelho, dizem também que ele a amou, e a levou para enaltecer seu mundo, seus domínios, pois nunca soubera de um mortal que via preto e branco. E hoje em noites de luar, muitos juram, que uma parte da colina sangra a cor vermelha. E no vilarejo, outros tantos, podem ouvir ainda Anicia gritar: 


- Cuidado! A Morte é vermelha, e vem pelo Olhar!


Por Donzella do Gelo

sábado, 23 de junho de 2012

Sem Asas





Sem Asas - Por Donzella do Gelo

És aquele mundano
Que busca seu canto
No canto do olho
Direito

Que sai pelas noites
Tórridas, lacrimejantes
Profano anjo sem asas
Caído

Tomando almas
Lambendo corpos
Almas sutis que corrompes
Sem golpes

Teus olhos verdes
Tua pela cálida
Embala, minhas
Entranhas

Estranha magia
Feitiçaria, “macumbaria”
Que me rendeu
Desespero de amor

Misturando a emoção
De provar-te
Decifrar-te
Nos movimentos
De tuas entranhas

Deixa, calar-te
No escarlate deste beijo
E cobrir teu corpo
Neste linho da mesma
Cor

Por Donzella do Gelo


terça-feira, 19 de junho de 2012

A Trave







Olha Primeiro a Trave no Teu Olho…

O sermão do monte é o marco que iniciou a caminhada de Jesus no seu ministério de ensino aos seus discípulos. Depois de separar seus doze apóstolos, percorreu toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do Reino de Deus, e curando todas as doenças e enfermidades entre o povo. Assim a sua fama correu por toda a Síria. De sorte que o seguiam grandes multidões. Jesus, pois vendo as multidões, subiu em um monte e passou a ensiná-las sobre o Reino de Deus.

E abrindo a sua boca, disse-lhes:

"Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgardes sereis julgados, e com a medida com que tiverdes medido vos hão de medir a vós. E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão, e não vês a trave que está no teu olho? Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, estando uma trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão" Mateus 7.1-5.

Não julgueis" está no presente, e "para que não sejais julgados" está no futuro. Não estamos em tempo de juízo, mas se o usarmos neste tempo, então quando chegar o tempo de sermos julgados, será usado contra nós na mesma medida que julgamos.

Por Donzella do Gelo

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Tudo Passa





Tudo passa

Até a chuva na janela, e os laços de fita.
Passa o vento, e as canções bonitas.
Passam os tempos e os temporais
Passam também os choros e sorrisos.
Passam os bichos, os ciscos nos olhos
Passam os cânticos contidos, olhares infindos.
Passa o amor, e desamor também passa.
E passando tudo isso, passa a vida a limpo.

Por Donzella do Gelo

terça-feira, 12 de junho de 2012

O Poder.





eu poderia.

eu poderia escrever
- Como um livro de
poesia intitulado

"O meu coração em espera"
Ou eu poderia pintar você
em uma tela com
monet-como-céus

eu poderia desgastá-lo
na minha manga -
Então eu poderia carregá-lo
comigo sempre

eu poderia esconder você
como discos antigos
e ouvir o
ritmo da sua alma
quando você me beija




Por Donzella do Gelo

segunda-feira, 11 de junho de 2012

A Oração





A Oração

Ainda que o cansaço sobrevenha neste corpo cansado
Ainda que da luz se façam trevas
Teu olhar sobre mim sempre terei

Ainda que os leões rujam, e os amigos me faltem
Ainda que todos se virem contra mim
Tuas mãos sobre mim sempre terei

Pois tu, Óh Jesus! É meu amigo fiel
Pois tu, Óh Senhor! Me olha e me guia no caminho
Sem tu, Óh Jesus! Não há trevas, nem tão pouco luz

Por isso me abrigo nos braços teus
E ali descanso os olhos meus
E meu corpo tão exausto sei que levas a cuidar

Há de ter um lugar, meu bom Senhor
Onde a dor não haverá
E aquele brado da conquista, da vitória hei de dar!

Por Donzella do Gelo Em vila Velha 31/01/2012

sábado, 9 de junho de 2012

Pensagem Anti-Poética







Pensagem Anti poética - Por Donzella do Gelo


Já faz algum tempo que observo minhas mãos. Pálidas, serenas, frágeis. Contudo há algo de ameaçador nelas. Simultâneamente os vasos sanguíneos que sob a pele se distendem, os nervos que se contraem quando as fecho. Parece que são algo fora do corpo, como se estivessem á parte. Sinto toda a intensidade até mesmo quando os dedos repousam. Eles são grossos, médios e que por muitas vezes arranham as paredes deste cômodo frio, este quadrado no qual me finco.

Sempre que me olho no espelho, por vezes me vejo fora de ordem, como se todo ponto fosse de fuga, que conduz a vida ou a morte. Sensações das quais nunca sonhamos um dia viver. Não faço idéia de onde eu esteja neste momento as lembranças, meus olhos parecem estar alheios e estranhos ao destino que ás vezes, penso não serem passíveis de explicação ou entendimento, mas isso não importa, o que importa é a distância e a proximidade de cada um dos meus dedos. Eles seguem juntos a palma de minhas mãos, que variam sem uniformidade me dizendo todo o tempo que sou destra, tão destra que por vezes creio ter apenas uma articulação, a direita. Deixando a esquerda numa infância abstrata.

Mas quando fecho as mãos, elas se transformam no meu sol particular e quando as abro as duas mãos irradiam feixes de luz, pois tudo cintila. É ai que percebo que lá fora existe vida e sonhos que me dizem que o mundo marcha, intenso, infesso ás nossas dúvidas. Como se cada um fosse dono do seu próprio paraíso e do seu inferno, o que varia isto é a forma de como encaramos o abrir e o fechar de nossas mãos.

Por Donzella do Gelo

sexta-feira, 8 de junho de 2012

A Vida.







A Vida.

Gosto de ficar no cantinho. Olhando de canto de olho o movimento da vida e arregalar os olhos nos acontecimentos bem bacanas. Ficar lá, curtindo sonhos, mesmo que sejam os de padaria. Tomar no frio sopas de letrinhas, e formar com elas frases bonitas na minha cabeça. Beber a pequenos goles, muitos momentos felizes. Ah! Felicidade de golada grandona, é com amigos e família perto né? Ouvir a chuva no telhado regando as nossas vontades. E contar segredos para Deus. 

É fácil ser feliz, basta anotar cá dentro da taboa do nosso coração as regras básicas pra se viver bem. Amar, sorrir, amar, brincar, amar, respeitar, amar, cuidar, amar, resgatar, amar e tantas outras coisas mais que a gente pode fazer mais e amar! Ufa!

A vida é assim, simples, não é tão complicada a ponto da gente ver tudo em preto e branco. O colorido, quem dá a vida somos nós. Ah! E o sabor também. Ela pode ser docinha como morangos maduros, ou manga, ou qualquer outro sabor que você goste. Isto fica por nossa conta mesmo. Há quem goste de viver no amargo, eu detesto gengibre, quando provo minha cara que já não é muito bonita fica toda enrugada. E então envelhecemos mais rápido por dentro e por fora. 

Quero ser jovem aqui dentro de mim sempre, e brincar de cubo mágico, desenhar, e rascunhar meus textos, fazer poemas pra essa vida linda que o Senhor nos deu. É isso, se um arco íris nos alegra no fim da chuva. A Nossa vida dever ser assim também, toda colorida para aqueles que precisam saber que tudo está cercadinho de amor. Que nem um quintal de grama, verdinha, verdinha pra gente brincar.

Por Donzella do Gelo

O Poço





Um poço 


Era uma vez um poço. Destes profundos e escuros, que não vemos o fundo. Era o poço o mundo e de seu mundo se fez a vida. Por muito tempo, o poço saciou a sede do homem. E o homem acolheu a sede do poço. Assim ambos eram um para o outro, o que só um poderia ser para o outro. O homem e o poço. A fonte que sente a sede do moço, e por sentir, água se faz.

Um dia houve a noite. E o poço acordou só. Esperou um dia. Esperou uma estação, mas era o fim da união. A chegada do inverno da solidão. O poço secou. Vazou. Fechou. E tudo foi silencio na casa do tempo.

O tempo que trouxe a chuva. E o poço de amargura se encheu. E no espelho de suas águas se afogou a lua, nua. O poço era fundo, como o furo no olho do mundo. Do segundo se fez as horas, e não ouviu-se mais o seu choro. 

Até que um dia houve outro dia. Um viajante cansado, com o olhar de lobo iluminou o poço de sede. Ele o tocou com suas mãos fortes, com sua pele áspera, com sua fome. Lançou seu chamado, seu brado, seu pedido da água da fonte. Mas o poço que antes era solidão, viu nesta sede uma nova ilusão, de ser tão somente água e não ser o fundo do mundo. Morreu. A história esta completa, e o que resta a dizer, é o que poderia ser. Versões da estação do coração. 

O poço então não saciou a sede do moço. Não de uma vez. A cada gole de suas águas, o poço o puxava. Até que não era mais água que o moço bebia, mas sim água de sua fonte. Sua fonte. Descoberta por acaso, como é o acaso o destino de viver. Com o poço o moço mudou a terra árida dos seus dias. Plantou e colheu bem querer todos os dias. E tudo era alegria na casa do moço, e o poço, este era de transbordar o que chamamos amar. 

Assim correu o tempo, e es que o moço se lembra do seu olhar de lobo, quando a lua traz o lado oculto em cada vulto. Seria quase um rito, um lobo ser tão somente um mito. Ele era por inteiro, o seu mundo um celeiro. Tinha a fome da busca. 

O poço nada entendia, pois já de novo sentia, o que hoje ou amanhã haveria. Seria de novo o tempo da seca, a estação negra do branco nos olhos. Seria de novo tudo tão velho e a casa em ruínas saberia da antiga sina. A água não cabe no coração do homem. O poço só o prende enquanto existe o escuro no fundo. Morreu o poço novamente em minha mente. Me salve leitor, me jogue nas águas do vento, pois tudo que de mim vem, ao vento voltará. 

Por Donzella do Gelo - O Poço.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

A igreja .




Imagem de: Inês Bustamante Kayashima

Por: Donzella do Gelo

A Solidão






A Solidão é de uma simplicidade.
Na sobra do meu peito.
Na imensidão do meu vazio.
Uma coleção de dores, quase verdadeiras,
que se vão pelo caminho.




Por Donzella do Gelo

A Lua

A lua nua, dança e flutua. Muda, e brilha sonhos. Chris Fonte - Donzela do Gelo